OVERDADEIRO VALOR DAS COISAS
Tenho visto e reparado muito – depois de um fato mágico que me ocorreu em um final de semana de outono, na praia – no comportamento e nas palavras das pessoas com quem tenho algum tipo de contato. Ou seja, com meu círculo de amizades em geral.
Semana passada, me instigou muito um comentário feito por uma pessoa – da qual nutro uma boa impressão em relação à sua atmosfera pessoal – que me disse que o fato de alguém ter Orkut, significa que é uma pessoa pequena, pois pequenas pessoas discutem pessoas e as grandes discutem idéias. Pensei tanto nisso que cheguei a ficar meio confusa a respeito e, se realmente um Orkut com 800 e poucas pessoas poderia me trazer alguma coisa de útil e, se eu mesma estava fazendo algo de útil mantendo meu perfil ativo.
Em uma das meditações que deveria fazer diariamente, mas que faço apenas quando uma coisa me tira a serenidade de ser, comecei a pensar sobre o valor de tudo isso e, justamente nessa hora me lembrei do tal acontecimento na praia, em que um hippie que vendia brincos por lá, tinha em seu painel uma frase que dizia: Qual o verdadeiro valor das coisas? Eu que sempre fui espiritualista demais, achei muito legal aquela frase estar ali, porque tinha mesmo tudo haver: a paisagem, a tranqüilidade e a disposição das pessoas que estavam ali a pararem pra pensar na vida delas e, assim como estava escrito no painel do hippie, pensar no verdadeiro valor das coisas..

Eu chamei o cara, comprei 1 brinco de linha, roxo e no formato de gota (daqueles mais balaios que existem hahaha). Ele tinha um brilho nos olhos que encantava, e parecia ser muito feliz com essa vida de vendedor de brincos ambulante. Então comentei sobre a frase, disse que me fez refletir, porque eu andava reclamando muito das coisas, e tudo parecia ficar cada vez pior e sem graça. O hippie, que não perguntei o nome, sentou do meu lado no chão e começou a me falar coisas que nunca vou me esquecer! Falou pra mim que todas as coisas que acontecem na nossa vida, são na verdade ‘presentes de Jah’ – assim ele se referiu ao Universo, à Energia que tudo cria, à natureza, à Deus ou seja lá o nome que quisermos atribuir a isso – mas ele, obviamente por ser hippie e ter uma cultura rastaffari, disse Jah. Acho bacana… é um nome bonito.
Prosseguindo, falou-me sobre o ato de respirar como um exemplo dos inúmeros presentes de Jah: ao inspirar o ar, logo vc tem que soltá-lo. Precisamos do ar, mas se guardarmos ele dentro de nós, morremos. E se quisermos obter algo, como verdadeira amizade por exemplo, precisamos nos doar, antes de tudo. Simbolicamente isso representa uma verdade maravilhosa, uma Lei da Vida que diz: dás e receberás. Apesar de ele falar muito de Jah, também citava coisas da Bíblia o tempo todo, e eu então o perguntei pq ele misturava tanto Jah com Deus, e ai falava de Jesus, e depois de outras coisas que, teoricamente, não tinham nada a ver com a religião católica. Ele me disse que os nomes eram diferentes de acordo com as religiões, mas que o Amor estava em todas elas, e que a religião dele era o Amor. (Perfeita explicação!).
Voltando a falar sobre a frase, ele disse: a água, por exemplo… é essencial, sem ela morreríamos, ela mata a nossa sede, ela mantém equilibrado todo o ecossistema, limpa, purifica, está presente em tudo que é vivo. Mas que em excesso, ela pode matar e destruir… as enchentes, as mortes por afogamento, etc. Então ele me perguntou: pensando nisso, tu diz que a água em si é boa ou má? Mas não me deixou responder, logo foi concluindo: depende o uso que fazemos dela. A água em si não é nem boa nem má, assim como o fogo que ao mesmo tempo em que esquenta e é também essencial para inúmeras atividades, também pode queimar e destruir, mas o fogo em si não é nem bom nem mau e, o verdadeiro valor das coisas está na forma com que a usamos e que a encaramos.

Conversamos mais um tempo, ele me fez várias perguntas, e no fim me deu os brincos de presente, não aceitando o meu dinheiro. Embrulhou num pacotinho e disse que era um presente de Jah pra mim, através da alma dele. Aquele dia eu me emocionei demais, e guardo esses brincos com muito cuidado, como se fossem de diamantes. Alias, pra mim eles valem muito mais que diamantes.
Lembrei do hippie e fiquei feliz, tranqüila de volta e, pensei novamente sobre a utilidade de determinadas coisas na minha vida, como por exemplo o tal do Orkut. Cheguei à conclusão de que atribui um valor bom a ele, porque o uso que faço dele é bom. E isso me basta saber, basta pra mim, e se não quero infortúnios, basta que eu não os propague. O verdadeiro amor e verdadeira amizade, obviamente não são para todos que estão ali, nem tão pouco coleciono amigos para que possam ver minhas fotos e o que estou fazendo por ai. Contudo, discutir o fato de se ter ou não um perfil ativo é, em última análise, discutir pessoas, não sendo portanto, discussão de idéias, pois o que realmente importa é o valor que atribuímos às coisas, uma vez que elas por si só não constituem benefício nem malefício. Todas as coisas, as pessoas e os fatos tornam-se pra nós, exatamente da mesma forma que a vemos.

Sábio esse hippie da praia, não perguntei nem o seu nome e todas as vezes que voltei lá não o vi. “Pena que não tem Orkut”, gostaria de lhe dizer obrigada novamente.
